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2003/08/27

Eu 

A contenção nunca foi o meu forte. A imagem estereotipada que os Americanos têm dos Italianos adequa-se-me perfeitamente: verbalizo, gesticulo, grito, beijo e abraço efusiva e profusamente. Adoro adjectivos e advérbios, interjeições e entoações. As minhas paixões são de “caixão à cova” e as minhas mágoas têm que ser sofridas de forma profunda, sem tréguas nem paliativos.
Esta é a minha verdadeira natureza, que, por força das convenções e conveniências, se esbate um pouco (talvez bastante...) fora do círculo de amigos e família.
Por vezes interpreto mal quem não é como eu. Poder-se-á interpretar bem quem quer que seja ?

2003/08/25

Notas de Parabéns 

Porque são merecidas, porque não há tempo para mais (nem sempre dizer mal é mais fácil e rápido do que dizer bem) e porque a “silly season” ainda não acabou !

Parabéns ao Rui Henriques Coimbra por dar alguma (muita !!!) côr e “salero” ao panorama cinzento (a roçar o negro empoeirado) da nossa imprensa dita séria. A Dinamarca passou a constar da minha lista “To Do” !

Parabéns ao André Pipa e restante equipa da revista “Volta ao Mundo” pela melhor publicação Portuguesa do género.

Parabéns à equipa d’ “Os Meus Livros” pelo excelente serviço que prestam a todos aqueles que têm a felicidade de achar a leitura um prazer.

Parabéns ao Prof. Marcelo por - estando em Saltzburg - ter conseguido ouvir até ao fim e pelo telefone os 40 e tal minutos do discurso de rentrée do Dr. Ferro Rodrigues. Acho que se estivesse em Saltzburg (ou em qualquer outro sítio igualmente maravilhoso) não teria paciência ...

Pequenas Coisas 

Há pequenas coisas que nos mudam a vida... um tom de voz, um olhar, uma ausência, uma presença, um toque, uma frase ...

2003/08/04

Esperança 

O C. tem 25 anos e soube há cerca de um ano que tinha um cancro linfático. Tinha acabado a licenciatura na UNL pouco antes e estava a começar o seu doutoramento. É impossível imaginar o que terá sentido quando soube que o caroço que tinha no pescoço era um tumor maligno, mas acredito que no turbilhão de emoções que acompanhava o desmoronar do seu mundo terá havido raiva, desespero e uma enorme sensação de injustiça.

Contrariando as estatísticas, após as sessões de quimioterapia e do internamento, C. ficou curado e retomou agora o seu doutoramento.

O R. tinha 25 anos quando soube que tinha leucemia. Foi há onze ou doze anos. Tinha acabado a mesma licenciatura na UNL (com uma das melhores médias de sempre, senão a melhor...) e tinha o mundo a seus pés. Era uma pessoa apaixonada e a excelência estava-lhe no sangue.

Nem os transplantes de medula nem a quimioterapia o salvaram. Deixou a minha melhor amiga viúva e inconsoláveis todos os que o conheciam.

É impossível falar do C. e da enorme esperança que casos como o seu nos trazem sem falar também do R. ...

Não há conclusões, nem moral, nem nada.

"Who ever said that life is fair ?"

Indignação 

Quinze dos dezoito distritos de Portugal estão a arder. Como é que é possível ?!

Vínculos I 

A vida é um conjunto imenso de vínculos: todos os que estabelecemos consciente ou inconscientemente até morrer... Vínculos em que o equilíbrio entre o dever e o haver está em processo de ajuste contínuo, construindo-nos e estruturando-nos. Vínculos que, sendo os nossos, só existem porque existimos. Alguns são vitais, outros importantes e outros nem por isso. Há aqueles em que só reparamos quando deixa de haver equilíbrio (habitualmente no campo da saúde ou meio ambiente) e aqueles que incessante e conscientemente nos ocupam e preocupam (filhos, emprego, etc.).

Somos, nestes inúmeros contratos que vamos estabelecendo, o centro do mundo, a parte interessada. Se assim não fosse não haveria emoção, conhecimento, fé ...

2003/07/29

Parabéns, Portugal !!!  

Seria injusto não registar aqui o enorme sucesso que foi a 12ª Gimnaestrada Mundial, que se realizou em Lisboa na semana passada !

Ficou provada (sem alarido) a nossa capacidade de organização de grandes eventos e ficou também provada, perante milhões de espectadores, a elevadíssima qualidade dos ginastas Portugueses ( que, nas exibições a que assisti, estiveram entre os melhores ).

Registe-se ainda o papel importantíssimo que inúmeras escolas da Grande Lisboa desempenharam neste evento: sem a dedicação dos seus professores e alunos voluntários não teria sido possível hospedar os 25 mil ginastas convidados de forma tão calorosa e bem sucedida.

Parabéns à organização, parabéns às escolas, parabéns aos ginastas Portugueses e parabéns a todos os que, de alguma forma, contribuiram para este estrondoso sucesso que, como Portuguesa, me orgulhou muito !

Até o tempo ajudou !

Tremores de terra 

Acordei em sobressalto antes do despertador tocar. O tremor de terra desta manhã (espero que não seja prenúncio do "big one"... ), provocou-me a angústia das situações em que não há nada a fazer.

Quando era miúda, confesso que por vezes adormecia apavorada com a possibilidade de acordar no meio de um terramoto. Acho que o facto de saber que a casa em que morava fora construída sobre os destroços do terramoto de 1755 terá contribuído para esses medos de infância; ou talvez o tremor de terra de 1969 ainda estivesse demasiado presente no meu subconsciente.

Quando fui para os Estados Unidos os tremores de terra deixaram de povoar as minhas angústias nocturnas, cedendo lugar aos tornados, tão frequentes e devastadores no Midwest Americano.

Agora que os receios que me assolam antes de adormecer já não têm nada a ver com tremores de terra ou tornados, é o precioso sono das minhas filhas que começa a ser perturbado por este tipo de medos (tremores de terra, ladrões, homens maus, aranhas venenosas, etc.).

Ainda bem que elas não deram por nada !

2003/07/28

A casa sem eles ... 

A casa sem eles é grande de mais ... O silêncio, ampliado pelo calor e pela sinfonia de cigarras, está impregnado da sua ausência ...
Sem eles, aqui, sinto-me desoladamente incompleta.


2003/07/24

To blog or not to blog ... 

To blog, or not to blog, that is the question:
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous boredom,
Or to take arms against a sea of yawns,
And by opposing end them?

Lá que vicia, vicia ...
É exigente ? Decerto !
É um prazer, todavia,
Só agora descoberto

2003/07/23

Vários "light" 

Sobre o Tratado dos Telemóveis do Abrupto : quase idem aspas para o e-mail, que ainda por cima tem a cena inacreditável do SPAM ....

Sobre a irritante publicidade aos SMS em diversos sites: o bip-bip ainda se consegue neutralizar, desligando o som do computador ... agora, porem-nos o écran todo a tremer é que não vale !!!

Artigo do Publico sobre um transplante de língua ... o que faltará ainda transplantar ?!

Como será o futuro com os Web Movies ? As estrelas cybernéticas também terão direito a aparecer na imprensa cor-de-rosa ?

Oddly enough ...

Obrigada, Mar Salgado, pelo seu amável elogio.




2003/07/22

Homenagem ao Jacarandá 

As ruas Rodrigo da Fonseca e Barata Salgueiro, que durante a semana estão tão cheias de carros e de gente apressada, são, ao fim-de-semana, das mais bonitas e calmas artérias de Lisboa graças aos seus frondosos jacarandás, que aqui homenageio, embora não de forma tão eloquente e esclarecida como a de António Barreto no seu magnífico artigo A Eternidade.

Valioso património de que, para mim, a área de confluência destas ruas com a R. do Salitre é indissociável, os jacarandás proporcionam um dos mais belos espectáculos de transfiguração paisagística aquando da sua floração.

Nessa altura, o céu e as fachadas dos edifícios antigos são recortados por um profuso rendilhado de ramos escuros carregados de pequenas flores lilases. Os passeios, largos e desafogados, cobrem-se de um manto do mesmo tom. Um perfume agradavelmente acre insinua-se no ar.

Nessa altura, passear aqui num Domingo à tarde é, de facto, passear na eternidade.

2003/07/21

Noites de Verão 

Um dos meus planos cinematográficos preferidos é o do céu imenso e estrelado cobrindo um deserto sem fim no filme “Lawrence da Arábia”. Nunca tive a felicidade de poder observar os astros em tão perfeitas condições, mas dois momentos houve em que me senti lá perto: um foi nos confins da Pennsylvania, deitada na caixa aberta de uma “pick-up truck” de amigos com os farois desligados, a milhas de qualquer casa ou fonte de luz terrestre; outro foi aqui bem mais perto, em Alforzemel numa noite de Verão excepcionalmente nítida (há um ou dois anos atrás).
Geralmente não consigo destinguir mais do que duas ou três constelações, o que não me perturba por aí além e não me impede de apreciar a avassaladora beleza celeste ( que tão bem põe em perspectiva a nossa insignificância atómica ... ).

2003/07/20

Livros 

A crónica de VGM na edição de Julho da Revista “Os meus Livros” é sobre o “Equador”, do Miguel Sousa Tavares.

Tal como o autor da crónica, também eu há muito tempo que não lia tão depressa e com tanto interesse um romance de 500 páginas de um autor português ( calculo, no entanto, que os meus motivos sejam diferentes dos de VGM pois nos tempos que vão correndo, arranjar tempo para ler, escrever ou ouvir música é um luxo que pago bem caro, com preciosas horas de sono a menos ...).

As descrições de Miguel Sousa Tavares são simplesmente arrebatadoras, facilmente capazes de nos transportar no espaço e no tempo.

A construção narrativa está, no domínio da ficção, bem conseguida e, no domínio histórico, bem enquadrada ( apesar de alguns pormenores pouco verosímeis, já sobejamente comentados, como conseguir ir de Lisboa a Vila Viçosa de comboio, almoçar com D. Carlos e conseguir estar de volta em Lisboa por volta da hora do jantar, a proporção que a ameaça de prisão por adultério assume, etc.).

O epílogo é simplesmente genial ao fazer coincidir o desfecho do drama pessoal de Luís Bernardo com o desfecho da monarquia em Portugal....

Não concordo com VGM no que toca ao capítulo sobre a vida de David e de Ann na Índia: acho que ele, extenso como é, desempenha um papel importante na caracterização dos contrastes entre as políticas Coloniais dos dois Impérios e respectivos estilos de vida, fazendo com que o leitor sinta como uma verdadeira descida aos infernos a despromoção de David e advinhe também a dimensão avassaladora do trauma de Ann.

Nota: Ainda sobre livros recentes, e a propósito do comentário da Bomba Inteligente, gostei imenso do “How to be Good” do Nick Hornby e recomendo-o vivamente a todas as almas bem humoradas que ainda não tenham desistido de andar à procura do seu verdadeiro "eu".

Recordações de Infância - 2 

Decidi aproveitar a tarde – luminosa e nítida – para dar uma volta com as miúdas passando pelos sítios que marcavam o meu dia-a-dia quando tinha a idade delas (mais coisa, menos coisa). Começamos pelo jardim do Princípe Real, que para elas não é propriamente novidade e donde só consegui arrancá-las ao fim de quase duas horas de brincadeira. Não noto que a essência deste maravilhoso jardim se tenha alterado muito nos últimos 30 anos: os homens ainda se juntam à volta das mesinhas para jogar às cartas e ouvir relatos de futebol na rádio, várias gerações partilham ainda, em harmonia, os inúmeros encantos do jardim, continua a haver pombos na dose certa, continua lá a frondosa árvore centenária que, se porventura morrer antes de mim, me causará uma tristeza infinita.... enfim: para mim continua a ser o jardim mais bonito de Lisboa (oxalá tenha morrido a ideia de fazer um parque subterrâneo na Patriarcal !).

Descemos depois a R. do Século (as minhas filhas não acreditam quando lhes digo que o trânsito naquela rua dantes tinha dois sentidos !!! ), antiga R. Formosa, rebaptizada em homenagem ao jornal que albergou durante décadas e onde o meu avô trabalhou durante largos anos.

Parte da rua pertence à freguesia das Mercês e parte pertence à freguesia de Santa Catarina.

Logo a seguir ao Palácio do Marquês de Pombal, que faz esquina com a R. da Academia das Ciências, surgem as antigas instalações d’”O Século” , agora transformadas em Ministério do Ambiente. Não foram, aparentemente, muito maltratadas e mantêm-se com um aspecto digno (melhor do que quando me fui embora, em 1980). Também encontrei com melhor cara o edifício que faz esquina com a Tv. André Valente, antiga Escola Primária frequentada pela minha mãe e pela minha tia na década de 40 do século passado. De resto, tudo aquilo de que me lembro, do Largo do Século até à Calçada do Combro, desapareceu sem deixar rasto: “A Capital” já não é ali há décadas, o “lugar das hortaliças” é agora uma loja mortiça de livros antigos, a padaria transformou-se num desses sítios que vende objectos de decoração “com design de marca” que não servem para nada senão para dizer que se tem, a taberna desapareceu.... Já na Calçada do Combro, a leitaria é um restaurante, a mercearia tem aspecto de estar abandonada há muito tempo, a antiga sede do MRPP ruiu, a Igreja de Santa Catarina está em obras (não reparei se a Orion e a Bijou ainda existem ....).

Já fora do Bairro Alto passámos por algumas das “minhas” escolas: o “Externato O Bambi”, na Calçada da Estrela, ainda lá está e com ar saudável; a escola “Sta. Terezinha do Menino Jesus”, na R. da Imprensa Nacional, também dá ideia de ter sobrevivido à revolução que assolou toda aquela zona de Lisboa. Já a “Escola Preparatória Fernão Lopes”, na R. Pinheiro Chagas, desapareceu do mapa...


2003/07/19

Recordações de Infância 

Tive uma infância feliz. Morávamos no 4º andar de um prédio pombalino da Rua do Século em que a falta de elevador era sobejamente compensada pela vista maravilhosa que tinhamos ao nosso dispôr.

Das janelas dos quartos e da casa de jantar, virados a Poente, viamos, numa fabulosa sobreposição de planos, a Igreja de S. Catarina, a Basílica da Estrela, o rio e o Cristo-Rei. Nas passagens de ano era aí que assistiamos ao fogo-de-artifício e à comoção que emanava dos paquetes atracados no Porto de Lisboa.
Nas divisões viradas a Norte podiamos, se o vento deixasse, ouvir trechos recortados de música e trinados vindos do Conservatório, mesmo ali ao lado.
A partir de Maio, os únicos sons que nos chegavam do mundo nos fins das tardes de Domingo eram os gritos felizes das andorinhas. Nessa altura, as janelas permaneciam abertas até escurecer e a luz do Sol a pôr-se enchia a casa de paz, beleza e poesia.

Nas vésperas dos dias de festa, as pratas eram areadas, o chão era encerado com cera amarela, os jarrões enchiam-se de gladíolos e os vidrinhos do candeeiro da casa de jantar eram deixados reluzentes (a Sra. Maria vinha da Trafaria três vezes por semana para ajudar nas lides da casa). No próprio dia da festa, o cheiro já atenuado da cera misturava-se com os dos petiscos e o gira-discos (pick-up !) do escritório tocava qualquer coisa que soava bem. Às vezes o pai, ou uma de nós, tocava piano enquanto as visitas não chegavam.

Quotidiano 

Dia de cão. Não sobra tempo para nada nem forças para além daquelas que me impedem de submergir completamente... Ontem estive, mais uma vez, 12 horas enfiada no escritório ! Doze horas longe dos meus Tesouros, que, em dias assim, estão invariavelmente a ver televisão ou a ouvir música quando chego a casa. Doze horas cujo balanço final nunca é muito satisfatório: pelo menos não vale aquilo que me rouba !!!

2003/07/17

Thoughts ... 

Dizem-me que devia querer menos do que quero ... e, no entanto, é do querer que nasce o saber ... querer mais é viver.


2003/07/16

Livros 

Há quem goste muito e há quem odeie ... eu gostei muito; é do VGM.

Meu querido amor da minha vida, e eu que tanto queria escrever-lhe uma carta que a acompanhasse, como um espécie de mapa que nos dissesse respeito, só a nós, para cada um de nós saber, a cada momento, onde é que o outro está e como está.
Pensei, pensei, achei que não era capaz de lhe dizer aquilo que gostava de saber exprimir completamente por me transtornar de mais só de pensar em si, em termos que as palavras não conseguem formular, e também por me ocorrer que há vários dias que não nos vemos e que você também se dê conta de como isso é insuportável.
Senti-me, sinto-me já tão amarrado a tristezas, mesmo antes de esses tempos começarem, que me parece às vezes que o melhor seria fazer um catálogo de saudades para que soubéssemos sempre situar-nos a partir delas e para que nos enternecêssemos com um exercício em que nos poderíamos recapitular, fosse de dia, fosse de noite.
Tudo ponderado, se é que se pode dizer assim nestas minhas circunstâncias tão emotivas e tão desoladas, achei que temos e vamos continuar a ter várias saudades de diferente natureza que vou procurar descrever enquanto o meu carro avança como se seguisse sem destino e a vejo sorrir comovida, como só você sabe sorrir e comover-se, à medida que vai lendo e as vai sentindo tantas e tão fundas, tão lancinantes, como eu.

A primeira saudade é a de um bem-estar fulgurante e tranquilo, de uma sensação que inunda alma e corpo por dentro e que nos leva a sentir que nada está fora do seu lugar, que se está certo nesse lugar e certo na relação de um com o outro, que tudo é musical e luminoso, que a harmonia está numa compreensão íntima a vir de uma tensão permanente de ternura, inteligência, sensbilidade e desejo.
A segunda saudade é a de ver e ouvir, de perto, de se estar ao pé um do outro, de haver olhos que se olham, caras que se vêem, risos deslumbrados que se têm, palavras que se dizem ou é como se fossem ditas, gestos que se fazem ou apenas se esboçam, e de sentir que nisso se é naturalmente intensional nos recados que se dão por cada um desses meios, como se é naturalmente capaz de adivinhar e de decifrar tudo o que se quer realmente dizer..
A terceira saudade é a que se liga aos momentos mais importantes que se vivem, passeios e paisagens, deambulações, pessoas que se passam a conhecer, coisas que se contam, confidências repentinamente tornadas necessárias, sonhos e palpites, expressões que se surpreendem, efeitos de luz, flores, ruídos do campo e do mar, músicas tantas vezes ouvidas quando se atravessa a noite, cores e sabores, emoções em que o íntimo e o de fora se combinam de um modo único e partilhado como não se pode acreditar que a mais ninguém tenha acontecido, em que o que já se passou continua a estar presente e é cada vez mais intenso e activo.
A quarta saudade é a do contacto da pele: mãos que se apertam e percorrem, afagos que se aventuram, bocas que se encontram, sensações que se sabem de cor e se querem inesgotáveis, corpos à beira de explodir ansiosos, tanta fome e tanta sede, liberdade e pudor, impaciência e timidez, contenção e promessa, tudo a renovar-se e tornar-se ilimitado a cada momento, repassado de uma doçura que nenhumas palavras conseguem descrever.
A quinta saudade é a da vida prática do dia-a-dia, ideias e projectos, tentativas e certezas, coisas que têm conta, peso e medida, espessura, ritmo, existência concreta, efeitos reais, coisas que se vão criando porque se está a remar na mesma direcção e se tem consciência disso, coisas que são reciprocamente induzidas e aperfeiçoadas, combinações de risco e de bom senso que se sente que resultam graças a esse empenhamento e a uma alegria da seriedade com que são postas em andamento.
A sexta saudade é a que faz com que um esteja sempre a falar com o outro e a fazer parte dele, a respirar nele e a existir nele, veia a veia, fibra a fibra, tecido a tecido, músculo a músculo, a ter de dizer-lhe sempre do seu amor das maneiras mais variadas e a propósito das situações mais diversas, com efeitos de luz e sombra, veemência e desvario, ansiedade e contentamento, sem nunca querer ou ser capaz de distinguir esse amor da própria vida e a só conseguir ser feliz assim.
A sétima saudade é a mistura transbordante de todas as anteriores, criando uma dimensão em que cada uma delas leva a todas as outras e recupera todas as outras, como se estivesse a olhar um caleidoscópio, ou como se estivesse dentro dele e fosse parte activa desse universo de reflexos interactivos, de brilhos, jogos de espelhos, formas coloridas, tempos sempre em mutação, espirais alucinantes mas invariavelmente ancoradas no coração das coisas e no coração propriamente dito e uníssono: é uma saudade que funciona como uma espécie de cursor no tempo, deslizando para trás e para a frente, girando em todas as direcções, revivendo as anteriores, inventando as próximas, entrançando uma e outras, agarrando-se a esperanças, sobressaltando-se com acasos, e sofrendo, sofrendo, sofrendo, só de pensar que se pode estar a uma distância de dias ou de apenas umas horas.



Vasco Graça Moura
in “Meu amor, era de noite”



Arquitectura 

Interessante para quem gosta de estar a par do que se passa pelo mundo no domínio da arquitectura: professione architetto. Encontrei-o ao fazer uma pesquisa sobre a "Casa da Música" (sobre a qual ainda não tenho opinião formada).

Inspiração 

Eis o fabuloso poema de António Machado que inspira este blog:

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

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